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          O Suspiro de Francina Na quietude da Barra do Brabo, onde o Rio Manso banha memórias e a vida corre no compasso das águas, nasceu Francina da Conceição do Carmo. Filha de Martinho e Maria Martinha, cresceu entre a simplicidade da roça e a esperança que embalava os jovens daquela terra. Tinha apenas 22 anos quando o destino lhe preparou um caminho de dor e silêncio.   Francina trabalhava em Cuiabá, mas sempre encontrava tempo para voltar à Barra do Brabo e rever os pais e irmãos. Nessas viagens carregava não apenas saudade, mas também sonhos. Estava grávida, fazia planos de se casar e guardava no coração a doce expectativa de contar aos pais a novidade que mudaria para sempre sua vida.   Era novembro de 1982. Mato Grosso respirava o clima quente das eleições. Júlio Campos e o padre Raimundo Pombo disputavam o pleito. No coração do povo, mais do que política, havia a crença no voto como ato de mudança, de esperança. O local de votação, naquelas...
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                 Mãe Walneth Cuiabá amanheceu mais silenciosa hoje.   O vento que sopra pelas ladeiras da cidade parece carregar um lamento suave, como se até a própria natureza sentisse a ausência de uma mulher que foi força, luz e acolhimento: Mãe Walneth de Moraes.   Nascida em 13 de janeiro de 1965, cresceu com o destino marcado pela espiritualidade e pela entrega ao próximo. No terreiro, onde tantas almas buscaram alívio, esperança e conselho, Mãe Walneth ergueu-se como sacerdotisa da Umbanda, mas também como mãe de coração aberto, daquelas que não negam um abraço nem uma palavra de fé.   Quem já participou da lavagem das escadarias do Rosário sabe: sua presença não passava despercebida. Ali, entre tambores, flores e cantos, Mãe Walneth era Sócia fundadora e parte viva da tradição, conduzindo com firmeza e doçura uma celebração que não é apenas ritual, mas também memória, resistência e identidade de um povo. Sua figura mar...
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  BAIRRO ARAÉS: SÍMBOLO DA IDENTIDADE CUIABANA   O Bairro Araés é um dos mais antigos de Cuiabá, carregando em suas ruas e memórias a herança cultural, social e histórica da capital mato-grossense. Seu nome vem da denominação de um povo indígena homônimo, oriundo de Goiás, que se estabeleceu na região. Posteriormente, famílias de escravos libertos ocuparam o local, o que levou alguns estudiosos a considerarem o Araés como um antigo quilombo urbano.   Entre as memórias preservadas, destaca-se o “Pito Aceso”, nome dado ao morro onde hoje está a Igreja Adventista. Ali, escravos reuniam-se para fumar cachimbos e cigarros de palha à luz das estrelas, criando uma paisagem noturna peculiar.   Segundo o professor Edson de Souza, desde o fim do século XVIII o Araés se consolidou como um bairro majoritariamente negro, formado por moradores das classes média, média-baixa e baixa. Até meados do século XX, era visto como periferia de Cuiabá, mas com a expansão urbana ganhou centr...
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  O Chafariz do Mundéu: A Fonte Onde Cuiabá Matou Sua Sede de História Por Francisco das Chagas Rocha Fontes: Pedro Rocha Jucá, Rubens de Mendonça, Firmo Rodrigues e Francisco Alexandre Ferreira Mendes. ⸻ Na quietude histórica da Praça Bispo Dom José, em meio às transformações que o tempo insiste em impor, repousa a memória líquida de Cuiabá: o Chafariz do Mundéu. Monumento de pedra e água, moldado pela mão humana e burilado pela persistência do tempo, esse chafariz não é apenas uma estrutura de alvenaria – é um relicário da alma cuiabana. Sua história começa em 28 de novembro de 1871, sob a orientação do Comendador Henrique José Vieira, Joaquim Felicíssimo de Almeida Louzada, o capitão de Mar e Guerra Antônio Cláudio Soído e o vereador Joaquim Alves Ferreira, durante o governo do presidente da província Francisco José Cardoso Júnior. Foi ele quem autorizou a construção de um reservatório no chamado Quintal do Maranhão, de onde partia um aqueduto que alimentava o novo chafariz no L...
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 CABARÉ DA PEDRA BRANCA No bairro do Porto, em Cuiabá, precisamente no final da Rua 13 de Junho, uma pedra branca chama a atenção de quem passa. À primeira vista, parece apenas mais um elemento urbano sem importância, mas essa pedra carrega uma história curiosa e marcante da região. Ela foi colocada ali por Francisco Pinto de Figueiredo, mais conhecido como Chico Pinto, um dos maiores proprietários de imóveis do bairro na época. Dono de quase um quarteirão inteiro, ele instalou a pedra com um propósito prático: evitar que caminhões batessem nas paredes de sua casa. A pedra, feita de cristal, naturalmente branca, passou a ser mantida pintada dessa cor, tornando-se um ponto de referência. Com o tempo, o local ficou conhecido como o ponto da Pedra Branca, nome que viria a batizar um famoso cabaré que funcionava nas redondezas. Importante destacar: o cabaré não era propriedade de Chico Pinto. Ele apenas alugava imóveis na região, e muitos deles foram utilizados como estabelecimentos de...
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A Semente de Pedro No coração do centro histórico de Cuiabá, onde as pedras da Rua Sete de Setembro ainda guardam ecos de passos antigos e histórias de devoção, aconteceu neste 24 de junho uma festa que mais parecia saudade vestida de esperança. Era a Festa de São João Batista, o santo do fogo e da alegria, celebrado com o fervor e o brilho que só a memória de Pedrinho Celestino poderia acender. Pedrinho partiu no dia 14 de março de 2025, mas sua ausência, curiosamente, não se fez sentir como vazio. Ao contrário: era como se ele estivesse ali, discreto como era, mas com aquele olhar atento de quem cuidava dos detalhes. Durante décadas, fez da Rua Sete de Setembro seu palco sagrado de tradição junina — bandeirinhas dançando ao vento, fogueira acesa, pipoca estourando no terreiro e a sanfona chorando saudade de um Brasil de raiz. Hoje, foi diferente. Ou talvez, mais do que nunca, foi igual. A Igreja do Senhor dos Passos transbordava de fé, de amigos e fiéis que sabiam: celebrar São João ...
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O São João de Seo Arthur Veríssimo: Uma Chama Acesa no Tempo Por Francisco das Chagas Rocha Em Cuiabá, quando junho desponta no calendário e o calor ganha nova alma, algo sagrado começa a se mover. Não é só o cheiro da canjica nem o vapor doce do quentão que tomam as ruas; é o tempo inteiro que se dobra, em silêncio, diante da fé. O passado pisa leve sobre as calçadas da cidade, trazendo consigo o som das sanfonas, o perfume da flor-de-laranjeira, a batida do tambor e o tilintar solene dos sinos da Igreja Matriz. E entre todas as tradições que acendem as noites juninas de Cuiabá, nenhuma brilha com tanta devoção e saudade quanto o São João de Seo Arthur Veríssimo. Há 123 anos — exatos, como uma promessa que se renova — essa festa se realiza sem interrupções. É como se a alma de um povo inteiro dançasse com o tempo. Começa com a subida do mastro, num gesto ancestral que finca a fé na terra e aponta o coração para o céu. Ao final, o mastro desce devagar, com o mesmo respeito com que se s...