O São João de Seo Arthur Veríssimo: Uma Chama Acesa no Tempo



Por Francisco das Chagas Rocha
Em Cuiabá, quando junho desponta no calendário e o calor ganha nova alma, algo sagrado começa a se mover. Não é só o cheiro da canjica nem o vapor doce do quentão que tomam as ruas; é o tempo inteiro que se dobra, em silêncio, diante da fé. O passado pisa leve sobre as calçadas da cidade, trazendo consigo o som das sanfonas, o perfume da flor-de-laranjeira, a batida do tambor e o tilintar solene dos sinos da Igreja Matriz. E entre todas as tradições que acendem as noites juninas de Cuiabá, nenhuma brilha com tanta devoção e saudade quanto o São João de Seo Arthur Veríssimo.
Há 123 anos — exatos, como uma promessa que se renova — essa festa se realiza sem interrupções. É como se a alma de um povo inteiro dançasse com o tempo. Começa com a subida do mastro, num gesto ancestral que finca a fé na terra e aponta o coração para o céu. Ao final, o mastro desce devagar, com o mesmo respeito com que se separam os grandes amores: “até o ano que vem”, dizem os olhos da comunidade.
A imagem de São João Batista, policromada, serena, com quase duzentos anos de história, veio de Portugal. Foi guardada com reverência por Seo Arthur e entregue como herança sagrada à família. Hoje, está nas mãos de Joãozinho, seu bisneto, que cuida da devoção como se guardasse fogo em suas mãos — um fogo que não queima, mas ilumina. É ele quem prepara o altar, recolhe as flores, acorda cedo para organizar a procissão do dia 24. A rua Antônio João, que no tempo dos tios-avôs era chamada de Rua dos Porcos, se transforma em um rio de passos, rezas e cantos.
Ao som do hino antigo —
“Deus te salve, João Batista sagrado, / O teu nascimento nos tem alegrado…” —
vem a banda, vêm os devotos. A fé caminha em cortejo.
Célia Moraes, com os olhos cheios d’água, recorda o tempo em que as festas se faziam no casarão da família, na Rua Antônio João. “Até choro”, confessa, “mas Joãozinho manteve viva a chama. Graças a São João.” Foi ela quem passou a imagem do santo adiante, como se entregasse o coração da família em mãos firmes e jovens.
À meia-noite, quando a lua observa em silêncio, a cidade se prepara para o momento mais simbólico: a lavagem da imagem na Bica da Prainha. Velas nas mãos, fé nos olhos, os devotos seguiam iluminando as ruas. Diziam os mais antigos: era preciso ver o próprio rosto refletido na água ao lavar o santo — quem não visse, não viveria o ano seguinte. As moças, com o coração na ponta dos dedos, pingavam gotas de vela na água, esperando que a cera formasse a letra do nome do futuro marido. O casarão da Rua Antônio João era o palco da chegada. Os mais velhos aguardavam na varanda, olhos marejados, mãos postas. Todos queriam beijar o santo, tocar sua túnica bordada, agradecer a chuva, o alimento, a vida. As crianças dançavam quadrilha até o dia clarear. A culinária cuiabana — maria isabel, farofa de banana, bolo de arroz, licor de pequi — perfumava a noite e alimentava os corpos e as lembranças.
Ali, entre promessas e devoções, estavam figuras que compunham esse teatro popular e sagrado: Dona Juja, Dona Jovina Bola de Ouro, o povo do Largo do Rosário. Goia, com seus doces no ponto exato; vicentina, dindinha Lizinha e Amélia, fiéis aos bolos com capricho de quem cozinha para os santos. Carmosina e Regina, tudo a espiar, observavam a montagem feita por Guilhermina — papel de seda nas mãos, dizia: “Pega o São João do oratório pra eu enfeitar.”
E Zé Venino, aflito com a banda: não podia parar o rasqueado, era preciso música para o povo dançar até o fim da noite. Ao raiar do dia ecoava a frase que marcava o fim da festa: “Quem beijou, beijou; quem não beijou, não beija mais.”
Tudo começou de forma simples, no Mundéu, entre compadres de Arthur e Dona Ana Camargo. Era apenas uma reza cantada, um chá com bolo, um almoço de partilha. Com o tempo, o rito cresceu: veio a missa na catedral, o jantar, o baile. A cada geração, novos braços seguravam a bandeira. Após a morte de Seo Arthur, aos 98 anos, foram suas quatro filhas — todas solteiras — que mantiveram acesa a tradição.
E mesmo com o avanço da cidade, com as lojas modernas engolindo o centro antigo, a fé resistiu. As irmãs mudaram-se para o CPA, para junto dos sobrinhos, e lá continuaram, com a mesma força. Casa nova, espírito antigo. Missa às seis, chá com bolo, almoço farto, jantar com rasqueado e, ao raiar do dia, o hino de São João encerrando a jornada como se a madrugada guardasse em si um segredo eterno.
As quatro irmãs se foram quase centenárias, mas deixaram a festa viva. Hoje, são os sobrinhos e sobrinhas que dão continuidade à herança — não como obrigação, mas como missão de amor. A festa permanece. A chama arde. O São João de Seo Arthur não é apenas memória: é milagre anual, é chama que não se apaga.

E assim, sob o céu estrelado de Cuiabá, o tempo dança ao lado do povo.
É fé, suor, flor de bananeira.
É papel de seda enfeitando o altar.
É voz que canta, vela que brilha, lágrima que cai.
É Joãozinho, é Seo Arthur, é toda uma cidade que se recusa a esquecer.
Porque enquanto houver alguém para cantar o hino e subir o mastro,
Enquanto houver um altar florido e uma sanfona a chorar,
Enquanto uma vela for acesa com devoção,
O São João de Seo Arthur continuará —
Uma chama acesa no tempo.

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