BAIRRO ARAÉS: SÍMBOLO DA IDENTIDADE CUIABANA
O Bairro Araés é um dos mais antigos de Cuiabá, carregando em suas ruas e memórias a herança cultural, social e histórica da capital mato-grossense. Seu nome vem da denominação de um povo indígena homônimo, oriundo de Goiás, que se estabeleceu na região. Posteriormente, famílias de escravos libertos ocuparam o local, o que levou alguns estudiosos a considerarem o Araés como um antigo quilombo urbano.
Entre as memórias preservadas, destaca-se o “Pito Aceso”, nome dado ao morro onde hoje está a Igreja Adventista. Ali, escravos reuniam-se para fumar cachimbos e cigarros de palha à luz das estrelas, criando uma paisagem noturna peculiar.
Segundo o professor Edson de Souza, desde o fim do século XVIII o Araés se consolidou como um bairro majoritariamente negro, formado por moradores das classes média, média-baixa e baixa. Até meados do século XX, era visto como periferia de Cuiabá, mas com a expansão urbana ganhou centralidade, mantendo forte coesão comunitária.
Moradores antigos, como Luiz Antônio Martins Garcia, recordam a existência de córregos limpos onde se nadava e pescava, contrastando com a poluição e os canais de esgoto que hoje caracterizam a região. Os córregos do Sargento e do General, que deságuam no Prainha, perderam seu papel natural e foram canalizados, tornando-se símbolos da degradação ambiental.
Ainda assim, a natureza resiste nos quintais do bairro. Sebastião dos Santos lembra-se das sombreadas mangueiras que servem de refúgio contra o calor cuiabano, compensando o abandono das ruas. Outros relatos evocam o garimpo de ouro de aluvião, muito comum nas décadas passadas, quando crianças e adultos corriam para catar pepitas durante as enxurradas.
Celina da Silva, moradora antiga, recordou que o bairro se transformou rapidamente, substituindo antigas casas de adobe por prédios, bares e lojas. Ainda assim, guardava a memória das antigas chácaras, córregos e povos indígenas.
Dona Maria Arruda da Conceição, na época com 92 anos, reforçou a importância do Araés na história do povoamento de Cuiabá. Segundo ela, o bairro era passagem obrigatória para os tropeiros que vinham da Chapada em direção à cidade.
O Araés sempre foi um polo de diversidade cultural e religiosa. Possui igrejas católicas tradicionais, como a de Nossa Senhora de Fátima, além de templos evangélicos de várias denominações e centros espíritas kardecistas. O bairro preserva o jeito de viver do cuiabano antigo, com festas religiosas e forte apego à identidade negra. Nos anos 1980, a fundação do Grupo de União e Consciência Negras (Grucon) consolidou o protagonismo da comunidade na luta contra a discriminação racial.
Preserva-se também a cultura tradicional cuiabana, sobretudo no sentido religioso e no comportamento comunitário. As famílias enfrentaram preconceito racial e social, sobretudo os adventistas, mas resistiram, mantendo vivas práticas culturais ligadas à culinária, à música e à religiosidade.
A expansão de Cuiabá a partir da década de 1970 trouxe impactos profundos. O bairro, antes periférico, passou a ser cercado pela verticalização da Av. Historiador Rubens de Mendonça (Avenida do CPA )e pela modernização da Av. Tenente-Coronel Duarte. A especulação imobiliária encareceu os imóveis e expulsou parte da população mais pobre, substituindo antigas casas de adobe por edifícios e estabelecimentos comerciais.
Projetos de urbanização, como o Cura e a canalização dos córregos, também remodelaram o espaço físico, mas não eliminaram problemas sociais. A professora Antonieta Luiza Costa aponta que o alto custo de vida e a ausência de políticas públicas contribuíram para o afastamento de famílias tradicionais do Araés.
O bairro abriga a Escola Estadual Presidente Médici, inaugurada em 1975, hoje Escola Estadual Militar Dom Pedro Ii, referência em práticas pedagógicas inovadoras. Foi considerada escola experimental e serviu de modelo para toda a rede estadual. Além disso, o bairro sempre teve forte vida comunitária, marcada pelo futebol de várzea nos campos de pelada espalhados por suas ruas e terrenos baldios.
No entanto, a vida comunitária também foi marcada por problemas de segurança. Desde os anos 1980.
O Bairro Araés é um espaço de contrastes: tradição e modernidade, resistência cultural e transformações urbanas, memória e esquecimento. Suas ruas, igrejas, córregos e histórias de vida refletem não apenas a trajetória de Cuiabá, mas também os desafios enfrentados pelas comunidades negras e populares no processo de urbanização.



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