O Suspiro de Francina
Na quietude da Barra do Brabo, onde o Rio Manso banha memórias e a vida corre no compasso das águas, nasceu Francina da Conceição do Carmo. Filha de Martinho e Maria Martinha, cresceu entre a simplicidade da roça e a esperança que embalava os jovens daquela terra. Tinha apenas 22 anos quando o destino lhe preparou um caminho de dor e silêncio.
Francina trabalhava em Cuiabá, mas sempre encontrava tempo para voltar à Barra do Brabo e rever os pais e irmãos. Nessas viagens carregava não apenas saudade, mas também sonhos. Estava grávida, fazia planos de se casar e guardava no coração a doce expectativa de contar aos pais a novidade que mudaria para sempre sua vida.
Era novembro de 1982. Mato Grosso respirava o clima quente das eleições. Júlio Campos e o padre Raimundo Pombo disputavam o pleito. No coração do povo, mais do que política, havia a crença no voto como ato de mudança, de esperança. O local de votação, naquelas redondezas, era na cabeceira do Mutum, na casa de Antônio Luiz. E foi rumo a esse destino que, numa noite escura, Francina subiu no caminhão de Leonídio, que deixava Cuiabá levando gente, sonhos e fé na democracia.
A estrada de terra cortava o silêncio da noite. O motor roncava, enquanto o caminhão enfrentava buracos profundos e trechos traiçoeiros do morro vermelho, na região do Soberbo. O balanço era constante, o veículo sacudia como se fosse engolido pela escuridão. Foi então, no dia 13 de novembro de 1982, que a tragédia se revelou: numa manobra brusca para desviar de mais uma cratera, o corpo de Francina perdeu o equilíbrio e caiu. O impacto seco contra o chão foi seguido pelo peso cruel da roda traseira, que esmagou sua esperança de futuro.
Francina partiu cedo demais, com a esperança ainda nos olhos e um futuro que nunca se cumpriu.
Ainda com vida, Francina foi amparada pelo irmão, Sabino. Nos braços dele, entre o medo e a dor, encontrou consolo. Cada suspiro era um fio que se desfazia. E foi ali, na mesma subida do morro vermelho, onde o pó da estrada se confundia com o luto, que ela entregou seu último fôlego. Palavras entrecortadas escaparam-lhe dos lábios, como um adeus que só o coração de Sabino pôde guardar.
Levado às pressas para Cuiabá, seu corpo encontrou repouso apenas no IML, até que a solidariedade do amigo Geremias a reconduziu, em silêncio, de volta para sua terra. Quando a tarde se despediu, já eram três ou quatro horas, a Barra do Brabo recebeu Francina pela última vez. Na noite de 14 de novembro, sob o luto das estrelas, ela foi sepultada.
A juventude interrompida, a maternidade interrompida, a vida interrompida – tudo ficou suspenso no tempo, como uma ferida aberta na memória dos que a amaram. O choro da mãe, o silêncio do pai, o desamparo dos irmãos e a dor dos amigos ecoaram naquela noite e continuam a ecoar, mesmo passadas mais de quatro décadas.
Francina partiu cedo demais, com a esperança ainda nos olhos e um futuro que nunca se cumpriu. Hoje, ao lembrar sua história, é como se o vento que sopra no morro vermelho ainda trouxesse o último suspiro dela, um sussurro triste que pede memória, respeito e saudade.
Porque algumas mortes não se apagam. Permanecem, como cicatriz na alma de uma família e de um lugar. E Francina, a moça da Barra do Brabo, será sempre lembrada como aquela que partiu carregando uma vida no ventre e deixou, no colo da eternidade, o peso de uma ausência que nunca se fecha.
E agora, em 13 de novembro de 2025, completam-se 43 anos de sua partida. Quase meio século depois, a dor permanece, mas junto dela cresce a certeza de que Francina continua viva na memória, no coração e nas orações de todos que a amaram.
Dona Martinha, mãe de Francina, hoje mora no bairro Jardim Vitória, em Cuiabá. Aos 94 anos, lúcida e forte, ela carrega no olhar a saudade eterna da filha, mas também a grandeza de quem aprendeu a transformar a dor em memória e resistência.

Comentários
Postar um comentário