A Semente de Pedro
No coração do centro histórico de Cuiabá, onde as pedras da Rua Sete de Setembro ainda guardam ecos de passos antigos e histórias de devoção, aconteceu neste 24 de junho uma festa que mais parecia saudade vestida de esperança. Era a Festa de São João Batista, o santo do fogo e da alegria, celebrado com o fervor e o brilho que só a memória de Pedrinho Celestino poderia acender.
Pedrinho partiu no dia 14 de março de 2025, mas sua ausência, curiosamente, não se fez sentir como vazio. Ao contrário: era como se ele estivesse ali, discreto como era, mas com aquele olhar atento de quem cuidava dos detalhes. Durante décadas, fez da Rua Sete de Setembro seu palco sagrado de tradição junina — bandeirinhas dançando ao vento, fogueira acesa, pipoca estourando no terreiro e a sanfona chorando saudade de um Brasil de raiz.
Hoje, foi diferente. Ou talvez, mais do que nunca, foi igual. A Igreja do Senhor dos Passos transbordava de fé, de amigos e fiéis que sabiam: celebrar São João era, também, celebrar a vida e o legado de Pedrinho. O sino da igreja, ao bater, parecia anunciar mais do que a hora: anunciava a continuidade de um sonho.
No altar florido, diante da imagem do santo, estava Amanda — a afilhada que herdou mais do que promessas de batismo; herdou a missão de manter viva uma chama que não se apaga. Com mãos firmes e coração emocionado, ela organizou a festa com o mesmo carinho que o padrinho lhe ensinou: sem ostentação, mas com verdade. A mesma fogueira, os mesmos ritmos, o mesmo cheiro de milho assado no ar. Só que agora, com um novo brilho nos olhos de quem vem depois.
Na procissão improvisada ao lado da igreja, alguém comentou: “Parece que Pedrinho está ali na porta, sorrindo.” E talvez estivesse mesmo, num desses milagres pequenos que só a fé e a tradição explicam. Porque a presença dos que partem nunca deixa de existir onde o amor continua.
A festa foi linda. A igreja cheia. Os corações, aquecidos não só pelo calor humano, mas por uma certeza mansa: a semente que Pedro plantou floresceu. E hoje, entre músicas, orações e lembranças, germina viva a tradição de um povo que não esquece os seus.
São João sorriu do céu. E, lá de onde estiver, Pedrinho também.
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