Zé Vieira

O Rei dos Causos de Cuiabá


Dizem que quem nunca ouviu um causo do Zé Vieira sentado na Praça Alencastro, nunca soube o que era rir de verdade. Era figura conhecida, dessas que deixavam a cidade mais alegre só de aparecer.

 

Seu nome completo era José de Souza Vieira, nascido em Poconé, filho do farmacêutico José Joaquim de Souza Vieira Gomes e de dona Laurinda Ribeiro de Souza Vieira.

 

Homem simples, contador de histórias como poucos, partiu no dia 28 de dezembro de 1978, aos 55 anos, em Cuiabá mas suas histórias continuam vivas, ecoando entre risadas, lembranças e muita saudade.

 

Morava ali na Getúlio Vargas, esquina com a Comandante Costa, bem ao lado do Beto Lanches. Sempre de chapéu, cigarro pendurado no canto da boca e um sorriso maroto que já anunciava: “lá vem mentira das boas!”.

 

O Fusca Submarino

 

Certa vez, Zé Vieira jurava que foi dirigir o Fusca pra Várzea Grande. Mas quando chegou no meio da ponte velha do Porto, o carro desgovernou e… pluft! despencou lá de cima!

 

Ele dizia que o mergulho foi tão demorado que deu tempo de ver o sol nascer três vezes. “À medida que o carro afundava”, contava ele, “a água ia ficando mais escura, tive que acender os faróis pra enxergar o fundo!”

 

Chegando no leito do rio, fez figa, girou a chave e milagre! o Fusca pegou! Foi descendo o rio, desviando de troncos, galhos e até de um pacu curioso. “Naquele tempo o rio era limpo, parecia até estrada!”, dizia.

 

Quando achou que estava na altura de uma praia, virou o volante pra esquerda e adivinha? saiu do outro lado, em Cuiabá de novo!
Ficou bravo: “Gastei gasolina à toa! Imagina se fosse hoje, com o preço que tá? Eu me afogava era de raiva!”

 

O Salto da Ponte e o Chá de Laranjeira

 

Outra vez, tava ele em cima da ponte Júlio Müller com um amigo. 

 

“Vamos pular?”, perguntou o amigo. 

 

“Vamo!”, respondeu o Zé, destemido. 

 

No meio do salto, lembrou:

 

“Eita, tomei chá de folha de laranjeira quente, não posso me molhar!” Fez meia volta no ar e voltou pra ponte. 

 

Ninguém sabe como só o Zé mesmo pra desafiar a gravidade e ainda rir da façanha.

 

O Mergulho até Corumbá

 

Teve o causo em que ele topou uma aposta de mergulho no rio Cuiabá. Entrou decidido a só subir quando não aguentasse mais.
Mergulhou… mergulhou… e quando levantou a cabeça, olhou em volta e não conheceu o lugar. Chamou um canoeiro e perguntou:

 

“Ô cumpadre, onde é que eu tô?”

 

O homem respondeu:

 

“Corumbá, Mato Grosso do Sul!”

 

Zé dizia que até pensou em voltar nadando, mas desistiu quando viu que o rio era mais teimoso que ele.

 

O Pintado que Baixou o Rio

 

Dizia também que, nos anos 60, pescou um pintado tão grande que o rio Cuiabá baixou cinco centímetros.


“E ainda deu pra fazer almoço pra cidade inteira!”, contava, com a cara mais séria do mundo.

 

O Disco do Rio

 

Numa de suas pescarias, achou um disco de vinil rodando dentro de um redemoinho, com um galho de sarã servindo de agulha. 

 

“Era disco furado, tocava só um pedacinho!”, dizia. 

 

Aí imitava a cena: 

 

‘Quem é você?’ 

 

“Zé Vieira!” 

 

‘Você é quem?’ 

 

“Já falei! Zé Vieira, filho da p…!” 

 

E gargalhava tanto que o povo ria mais da risada dele do que do causo. 

 

O Cinema e o Coração Saltitante

 

Teve o dia em que foi ao cinema assistir a um filme de Mazzaropi. A piada era boa, mas o riso do Zé foi melhor. Riu tanto, mas tanto, que o coração saiu pela boca, bateu na tela, voltou pro peito e ainda achou ele rindo! 

 

“Se o Mazzaropi tivesse visto, me contratava pra estrelar o próximo filme”, dizia orgulhoso. 

 

O Caminhão Gigante

 

Zé Vieira jurava que dirigia um caminhão tão grande, mas tão grande, que quando fez uma curva, viu a traseira vindo na direção dele.

 

“Freiei pra não bater em mim mesmo”, contava, sério.

 

O povo, claro, se acabava de rir. 

 

O Campeonato de Mergulho

 

Contava também que participou de um campeonato de mergulho famoso em Cuiabá. Os competidores pulavam do arco da ponte Júlio Müller, e quem fosse mais longe ganhava. 

 

Um americano pulou e foi parar lá no Saladeiro o povo aplaudiu. 

 

Mas começaram a gritar: “Zé Vieira! Zé Vieira!” 

 

Ele pensou: “Tá difícil, mas vou até onde o fôlego der. Se cansar, eu tiro a cabeça d’água.” 

 

Pulou… foi indo… indo… 

 

Quando começou a cansar, levantou a cabeça e perguntou a uma mulher lavando roupa: 

 

“Dona, onde é aqui?” 

 

“Aqui é Santo Antônio de Leverger!” 

 

Zé gritou: “Ganhei! E ainda sobrou fôlego pra voltar!” 

 

A Corrida da Cobra

 

Outra história clássica era a da corrida de bicicleta, do centro de Cuiabá até o Coxipó da Ponte. 

 

Ele liderava quando o pneu furou, mas continuou pedalando firme. 

 

De repente, o pneu “encheu sozinho”!

 

Chegou em primeiro! 

 

Em casa, curioso, foi olhar e viu uma cobra enrolada no aro. 

 

“Mas se continuarem rindo, eu não conto mais nada!”, resmungava, fingindo braveza. 

 

A Viagem para o Irmão Vivo

 

Zé dizia que um dia recebeu notícia de que o irmão tinha morrido em Poconé. 

 

Pegou a Rural num desespero só e correu tanto que, quando chegou lá, o irmão ainda tava vivo! 

 

“Fui tão rápido que cheguei antes da morte!”, contava, estufando o peito. 

 

O Peixe Fumante

 

E pra encerrar, o mais famoso dos causos: 

 

Certo dia foi pescar no Pantanal, e logo no primeiro arremesso fisgou um pacu fumando cigarro. 

 

O peixe tava com o cigarro aceso na boca! 

 

Zé mostrou pro amigo e disse: 

 

“Falam que eu minto… olha a verdade aí!” 

 

O Eterno Contador de Causos

 

Assim era José de Souza Vieira, o inesquecível Zé Vieira homem de riso fácil, língua afiada e coração bom. 

 

Um contador de causos que transformava mentira em poesia, exagero em alegria e o cotidiano em espetáculo. 

 

Quem o ouviu na Praça Alencastro, entre gargalhadas e cafezinhos, sabe: 

 

Cuiabá ficou mais silenciosa depois que ele se foi. 

 

Mas suas histórias… ah, essas continuam vivas, navegando pelo rio da memória como o Fusca dele, sereno, descendo o rio Cuiabá e rindo de tudo que a vida lhe deu.

 

1

 

*Francisco das Chagas Rocha é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT).

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