O Galo da Igreja da Boa Morte de Cuiabá: Uma Sentinela do Tempo



No coração do bairro Boa Morte, em Cuiabá, repousa uma das mais discretas, porém emblemáticas igrejas da capital mato-grossense: a Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte. Com sua arquitetura simples e singela, ela guarda segredos que resistem ao tempo — e entre esses mistérios está o velho Galo da Torre, uma peça de metal que, por décadas, coroou a paisagem urbana da cidade e hoje representa um elo entre o passado e a memória afetiva dos cuiabanos.


Minha relação com o Galo da Boa Morte teve início em 2009, quando participei da restauração da igreja. Durante os trabalhos, encontrei o velho galo num canto de uma sala, todo empoeirado, esquecido entre caixas e objetos antigos. Desde então, ele ficou guardado ali, quieto e enigmático. Minha curiosidade sobre sua origem e função crescia a cada dia. Busquei respostas com historiadores, moradores antigos, em livros e arquivos — mas o silêncio da história parecia intransponível.


Somente em 2017, com a permissão do frei responsável pela paróquia, pude examinar o galo de perto. Armado com uma câmera fotográfica, fotografei cada detalhe, cada curva da peça metálica. Foi então que o inesperado aconteceu: de dentro de uma das pernas do galo caiu um pequeno rolo de papel, amarrado com cordão, contendo uma preciosa informação histórica. O bilhete dizia:


“MUSEU DOM JOSÉ

Sob a direcção de Dr. Euphrásio Cunha

Este gallo pertenceu à Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte e encimava o alto daquela Igreja.

Foi elle derrubado por uma faisca electríca, depois permaneceu por vários annos naquella Igreja, foi aos pedaços presenteado ao Museu Dom José, que o mandou consertar nas officinas de Dona Fortunata, sendo o consertador o seu operário Dídimo Ribeiro de Moraes.

Em 23 de outubro de 1936

Cuyabá”


A nota esclarecia que o galo havia sido atingido por uma descarga elétrica (um raio), o que levou à sua queda da torre. Segundo informações orais transmitidas por Dona Maria de Arruda Müller, a torre da igreja, ao ser atingida pelo raio, desabou completamente, e consequentemente o galo também caiu. Parte dos escombros ou terra dessa torre teriam sido utilizados na construção do Solar da família Müller, cuja edificação data de 1898. Trata-se, portanto, de um raro cruzamento entre memória oral e patrimônio material cuiabano.


Apesar do achado, nenhuma fonte escrita posterior à década de 1930 confirmou o raio ou a queda da torre — nem jornais, nem hemerotecas. Ainda assim, evidências literárias confirmam que o galo já existia há muito tempo. Em 1869, Joaquim Ferreira Moutinho, em Notícia sobre a Província de Mato Grosso, descreve a Igreja da Boa Morte como tendo uma única torre encimada por um galo. Tal detalhe confirma a presença simbólica do galo, visível a viajantes e moradores, marcando a paisagem cuiabana.


Além do valor simbólico e arquitetônico, o galo da torre da Igreja da Boa Morte tinha também uma função prática e relevante: segundo relatos de antigamente, muitos viajantes que vinham de diferentes localidades — como Diamantino, Vila do Rosário, a região do Manso e Chapada dos Guimarães — avistavam o velho galo de longe, usando-o como ponto de referência para se orientar em direção à cidade de Cuiabá. Isso reforça a importância histórica e geográfica desse elemento que, por tanto tempo, vigiou silenciosamente a cidade do alto.


A história também ganha contornos emocionais na crônica Sinfonia da Boa Morte, de José de Mesquita, publicada em 1941 no jornal A Cruz. Nela, o autor recorda com saudade sua infância ao contemplar, com olhos de menino, o galo na torre:


“Lembro-me da emoção com que, criança, fui ver teu galo da torre…”


Com palavras delicadas, José de Mesquita transforma o bairro em poesia e a Igreja da Boa Morte em um oratório sagrado da memória coletiva. Seu relato nos transporta a uma Cuiabá provinciana, serena, quase litúrgica, onde o tempo parecia caminhar ao ritmo dos sinos e da fé.


A Paróquia da Boa Morte foi criada em 14 de agosto de 1905, tendo como primeiro pároco Monsenhor Bento Severiano da Luz. Entre 1917 e 1939, assumiu a direção o Monsenhor Alexandre Trebaure, personagem que provavelmente intermediou a entrega do galo ao Museu Dom José. Segundo o historiador Luís Phillipe Pereira Leite, a paróquia era paupérrima — padres sobreviviam da generosidade dos fiéis. Isso explica por que, mesmo danificado, o galo jamais pôde ser substituído por outro: não havia recursos.


O Galo da Boa Morte é, portanto, mais que um adorno ou símbolo estético: é testemunha silenciosa da história de Cuiabá, da fé de um povo e da persistência de sua memória. O simples fato de ele ter resistido ao tempo, à queda e ao esquecimento, para ser redescoberto por mãos curiosas e apaixonadas, mostra que a história não morre — ela apenas repousa, à espera de ser despertada.



Referências:

Moutinho, Joaquim Ferreira. Notícia sobre a Província de Matto Grosso, 1869.

Mesquita, José de. Sinfonia da Boa Morte, crônica publicada no jornal A Cruz, 03 de agosto de 1941.

Leite, Luís Phillipe Pereira. Monsenhor Alexandre Trebaure.

Bilhete encontrado no interior da escultura do Galo da Boa Morte, 2017.

Informação oral de Dona Maria de Arruda Müller, repassada por tradição familiar.





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