O Imóvel do Largo do Rosário e a Memória do São João Bola de Ouro
No coração do Largo do Rosário, em Cuiabá, ergue-se um imóvel que guarda não apenas paredes e telhas antigas, mas sobretudo a memória viva de uma das mais tradicionais festas juninas da cidade: o São João Bola de Ouro, celebrado sob a liderança de Jovina Clara de Carvalho, carinhosamente conhecida como Dona Jovina Bola de Ouro.
Na década de 1950, Dona Jovina transformou sua casa de chão batido em palco de uma celebração que mobilizava toda a comunidade. Eram três dias de festa, que iam muito além do simples calendário junino: começavam com missa e levantamento do mastro de São João, seguiam com chá com bolo, pastel frito na hora, bolo de arroz, francisquito e outras iguarias típicas, e culminavam com os animados bailes noturnos, ao som do tradicional rasqueado cuiabano.
A festa era animada pela Banda do 16º Batalhão, famosa pelo seu “limpa banco”, e também pelo talento do Mestre Inácio Constantino, reconhecido como precursor do rasqueado cuiabano, que ajudava a dar ritmo e identidade musical à celebração.
Não era uma festa da elite cuiabana. Pelo contrário, o São João Bola de Ouro reunia famílias simples dos bairros Baú, Araés, Mandioca e arredores, todos em torno da fé, da música e da convivência comunitária. No altar improvisado na sala, São João recebia flores e enfeites coloridos; na rua, os fogos iluminavam o céu; no salão, os festeiros animavam o baile até altas horas.
As festividades se mantiveram vivas e intensas até a segunda metade da década de 1970, quando o Largo do Rosário já era um espaço consolidado na memória popular como o grande palco do São João de Dona Jovina.
O que fazia da festa um marco não era apenas a religiosidade ou o ritmo contagiante do rasqueado, mas a capacidade de Dona Jovina em acolher, unir e dar identidade a uma coletividade. O Bola de Ouro tornou-se sinônimo de encontro, partilha e alegria, mantendo viva a tradição do São João em Cuiabá em sua forma mais genuína e popular.
O Imóvel em Restauração
Hoje, o imóvel do Largo do Rosário, que um dia foi palco de tantas memórias, encontra-se em processo de restauração. Sua importância não se limita à memória cultural: a construção em si é testemunho de antigas técnicas construtivas, erguidas em adobe e taipa de pilão, métodos tradicionais que garantiam solidez e frescor às casas cuiabanas.
Mais do que conservar sua estrutura física, trata-se de preservar um patrimônio imaterial, que fala da cultura, da religiosidade e da sociabilidade cuiabana. O resgate desse espaço é também um ato de reconhecimento à memória de Dona Jovina e de todos que fizeram parte dessa história.
O Largo do Rosário, além de guardar a lembrança da festa de São João Bola de Ouro, também é envolto em narrativas lendárias. Uma das mais conhecidas é a Lenda da Alavanca de Ouro, que conta que, sob as terras do Rosário, estaria enterrada uma alavanca feita de ouro puro. Diz-se que, para encontrá-la, seria preciso seguir sinais misteriosos que só os escolhidos conseguiriam decifrar. Essa lenda, transmitida de geração em geração, mistura-se com as memórias da festa, reforçando o caráter místico e simbólico do lugar.
Assim, o imóvel de Dona Jovina no Largo do Rosário não é apenas uma casa antiga: é um espaço onde se cruzam fé, cultura popular, imaginário coletivo e saberes construtivos tradicionais. Sua restauração representa a valorização de uma memória que pertence a toda a cidade, reafirmando Cuiabá como terra de tradições, lendas e festas que resistem ao tempo.



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